A rua da minha saudade.
By vitor_hugo on mar 10, 2010 with Comentários 5
OBS: Para compreender (viver) este texto, mergulhe em suas lembranças!
Revi, senti, e vivi. O passado intocável que traz aos olhos a primícia das lágrimas. Novamente pisei sobre o solo sagrado de minha infância que, outrora, meus pequenos pés correram, escorregam, toparam. Suspirei profundamente para buscar o frescor da mata serrada, cortada, esmagada pelos passos afoitos daqueles que brincavam como se as horas não existissem. Vieram à tona as alegrias de minha tenra idade: os muros, as casas, as árvores, a rua.
Lembrei-me das goiabeiras lotadas de seus suculentos frutos avermelhados que, como quem acenasse, convidava todos para uma empolgante reunião pendurados em seus longos galhos. Lembrei-me do assombroso bambuzal ao lado da rodovia, o qual crescia vertiginosamente ao som dos muitos carros, motos e caminhões. Lembrei-me do puçá, da vara, da tarrafa que, jogada às águas barrentas do riozinho, esperava por mais uma pobre e atordoada Traíra[1]. Lembrei-me do campinho, o palco dos clássicos, dos chutes, das cabeçadas, e claro, dos tapas e arranhões. Lembrei-me do trepidar da lenha na fogueira inflamada com o mais alto fogo; fogo que aquecia e abraçava a todos nas noites frias de São João.
Meus olhos brilham e meu coração enfraquece ao revisitar momentos transcendentes como estes.
O mesmo pó que pairava sob a frenética corrida de bicicletas, ao ensurdecedor barulho de tampas de margarinas em suas rodas, ainda hoje, mancham portas, janelas, e portões. Lembrei-me das partidas de futebol, disputadas com suas respectivas traves feitas com chinelos havaianas desgastados. Descalços, em meio a cacos e pedras, a alegria inundava toda vizinhança. Os portões e muros tornavam-se arquibancadas, onde os curiosos pais, mães, tios e tias, apreciavam nossas jogadas. E nós, os meninos sem vanglórias, prepotências e vaidades; com camisa ou sem camisa, suávamos em busca dos aplausos bajuladores daqueles que nos assistiam; pudera eu voltar no tempo.
Se houvesse possibilidade, pediria este presente a Deus: voltar e rever meus amigos, ainda pequenos, na rua da minha saudade, na estação da minha infância, na sublime e leve vida de menino. Vestiria novamente minha bermuda, meu boné, meu kichute. Berraria novamente o nome de todos os meus amigos em seus respectivos portões, anunciando a brincadeira do dia. Subiria novamente em minha pequena bicicleta vermelha, e com meus lábios, balbuciaria arrancadas, freadas, buzinadas e emoções. Viveria novamente vidas quem nunca vivi; pessoas (pilotos) que nunca me conheceram:
- ACELEEEERA AYRTON!
Repetiria tudo de novo. Brigaria novamente e fugiria novamente, tendo a certeza que o sono noturno levaria para longe toda e qualquer raiva de nossos corações. Pela manhã, nossas amizades continuariam as mesmas.
As profundas e irreparáveis cicatrizes de minha infância, ainda inflamam de saudade de todos aqueles pequenos. Em meio às dores destas lembranças, flambado em mornas lágrimas, compreendo e aprecio as palavras do saudosista cantor que, ao som de sua chorosa viola, poetiza: “A saudade é uma estrada longa / que começa e não tem mais fim / suas léguas dão volta ao mundo / mas não voltam por onde vim / A saudade é uma estrada longa / que hoje passa dentro de mim / me armei só de esperança / mas usei balas de festim.
Obrigado Senhor por estas lembranças!
Por Vitor Hugo (vitorhugo@formulados.com.br)
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[1] Uma espécie de peixe de água doce.
Arquivado em: Espiritualidade • Vitor Hugo
Sobre o autor: Vitor Hugo da Silva, 27 anos; Um cristão que vive diariamente o velho dilema Paulino: "Miserável homem que sou!". Estudante de teologia no Centro Evangélico de Educação e Cultura - CEEDUC. Casado com Juliana, e papai da Gabriela. Serve como presbítero na Igreja Evangélica Assembléia de Deus de Joinville; congregação do Porto Rico.
Comentários (5)
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Chorei, ;D
“Obrigado Senhor por estas lembranças!”
que texto
Teste, agora são 3!
LIndooo Texto…Me Emocionei…Doces e singelas lembranças! Obrigado Senhor pelas doces lembranças!
Ahh que saudades do seu blog, Vitor!
É a segunda vez que leio este post
(a primeira vez foi no seu blog)..
e é lindo sempre!!!
Obrigada, Senhor, pelas doces lembranças!!