Não temas, filho! Lamentações 3.57
By beto_church on fev 02, 2010 with Comentários 0
“De mim te aproximaste no dia em que te invoquei; disseste: Não temas.”
Jerusalém fora devastada pelos babilônios. O glorioso templo de Salomão tornou-se um montão de escombros. Um grande grupo de judeus foi deportado para o território babilônico. Este contexto histórico e trágico é a realidade em que o autor de Lamentações se encontra. Grande parte dos estudiosos concorda que a autoria do texto é de Jeremias. Assim sendo, seu lamento é por demais dolorido já que ele profetizara, durante o reinado de cinco reis, alertando para o perigo da desobediência, recebendo como retribuição perseguições de morte, injurias e ódio. “Sua mensagem era basicamente de severo alerta contra o inevitável juízo do cativeiro Babilônico, se o povo não se arrependesse da idolatria e do pecado” (1). O capítulo três, onde está o verso de hoje “pode ser considerado o centro do livro, tanto por sua forma [...] quanto por seu conteúdo (a confissão do pecado e a fé na bondade de Deus)” (2).
Por que não temer? 1 porque ao chorar, mesmo que o momento seja muito difícil podemos ter esperança de perdão; 2 de sermos ouvidos; 3 e de sermos restaurados.
Aplicação: “Lamentações não é simples petição, é antes, uma resposta espontânea à presença do caos, ao estilhaçar das coisas, ao sofrimento e a própria morte em vida” (3). Este lamento sobre Jerusalém deve, para nós hoje, ser um lembrete que também temos o que lamentar. Não defendo a proposição que devamos ser lamuriosos, melindrosos e chorões. Defendo sim, que, uma bela beatitude ausente das pregações contemporâneas, mas presente no sermão de Jesus foi: “Bem aventurados os que choram, porque serão consolados” (4). O choro descrito por Jesus era um choro sobre o pecado, pela injustiça causada pelo pecado do mundo. Lloyd-Jones, comentando Mateus, afirma que uma ideia errônea vem ganhando força: que para atrair os que não são crentes, devemos aparentar certa alegria. Ele completa: “há muitos que procuram assumir um ar de alegria e felicidade que não procede da alma, mas que é apenas uma simulação” (5). Jesus não pede isso, antes elogia o choro. Por quê? Porque o choro sincero e correto tem uma promessa: “serão consolados”. Esta promessa produz esperança. Podemos assim aprender a ter esperança, mesmo durante o choro (lamento).
Arrependimento. Ao chorar, mesmo que o momento seja muito difícil podemos ter esperança de perdão. Não importa se você foi injustiçado, ou está colhendo os frutos de uma atitude errada. O bem e o mal, em última instância vêm do Senhor (6). Tanto o livro de Jeremias, como lamentações trazem uma exigência comum: arrependimento. A melhor forma de ter esperança é ter sempre um coração contrito, arrependido. Você pode perguntar: mas estou passando isso porque pequei? Não necessariamente. Mas a realidade é que sempre pecamos. João afirma que: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (7). Porque não aproveitar o momento adverso para fazer um auto-exame de conduta? John Piper revela: “Jamais ouvi alguém dizer: ‘As lições verdadeiramente profundas da vida aprendi-as em tempos de tranqüilidade e conforto’. Mas ouvi santos dizerem: ‘Todo avanço importante que já obtive em termos de compreender a profundidade do amor de Deus e de crescer profundamente com ele, veio pelo sofrimento’” (8). É lógico que ninguém gosta de sofrer. Mas é um momento de reflexão, onde poderemos nos avaliar, corrigir os erros e ter esperança no socorro Divino, pois se estamos errados, Ele nos perdoa e restitui; se estamos certos e injustiçados, é Ele quem nos fará justiça. Arrependimento e esperança.
Ser ouvido. Ao chorar, mesmo que o momento seja muito difícil podemos ter esperança de sermos ouvidos. Isso O glorifica. Primeiro nos arrependemos com convicção, pois isso nos traz esperança. “A convicção é uma medida preliminar e essencial, a fim de que haja verdadeira conversão da alma” (9). Depois clamamos a Quem sempre nos ouve. O verso 56 e 57 de Lamentações capítulo 3 diz: “ouviste a minha voz [...] de mim Te aproximaste”. O pedir perdão e saber que sempre se é perdoado abrem nossos olhos para uma linda realidade – O Senhor não se afasta de nós, nós por nos sentirmos culpados, é que nos afastamos dEle, assim como Adão no Éden (10). Ele sempre está conosco e conhece de perto o nosso sofrimento (11). Sua misericórdia é a causa de não sermos consumidos, e esta misericórdia não tem fim, renovando-se a toda manhã (12). Eis a razão da nossa esperança – Sua fidelidade é grande e nossa parte é o Senhor, vamos esperá-Lo com paciência (13). O mundo cristão contemporânea afirma que Deus somente é honrado quando somos prósperos em todas as coisas. Não concordo e faço minhas as palavras de Piper: “Deus é mais glorificado em nós quando estamos satisfeitos nEle” (14). Quando clamamos, Ele nos diz: não temas; mostrando Sua misericórdia e fidelidade à Suas promessas.
Restauração. Ao chorar, mesmo que o momento seja muito difícil devemos ter esperança de sermos restaurados. Vemos em Lamentações que devemos ter esperança mesmo quando parece que esta morreu; que não devemos reclamar, a não ser que seja de nossos pecados; e ainda que devemos analisar nossos caminhos e voltar aos decretos do Senhor (15). Agora é a hora de esperar a promessa. Não devemos nos abater e nem ficar remoendo a dor. Quando o autor está ainda amargando a dor exclama: “Minha alma, continuamente, os recorda (a aflição e o pranto) e se abate dentro de mim” (16). Remoer uma mágoa, uma dor ou um medo por muito tempo nos faz mal. Passamos a criar um sentimento de revolta, de ódio, de vingança ou de pavor, para com determinadas situações ou pessoas. Isso não produz nada de bom em nós. O texto nos mostra que devemos aguardar a salvação do Senhor em silêncio (17), isto é, sem murmuração. Como ficar em silêncio em momentos de medo e de dor, enquanto aguardamos a restauração? Lembrando das promessas de misericórdia. Quando o autor começa a falar sobre misericórdia diz: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (18). E o que pode dar esperança, senão as promessas dEle? Enquanto a promessa não se cumpre, a esperança nos traz paz, confiança e um espírito de gratidão antecipada, glorificando ao Senhor. Sua promessa de misericórdia é fiel e nos promete remir a vida, julgando a nossa causa (19).
Referências:
(1) Manual Bíblico Unger – Merril F. Unger – Vida Nova, p. 272;
(2) Novo Comentário Bíblico São Jerônimo – AT, Raymond E Brown, Joseph A Fitzmyer e Roland E Murphy (editores) – Academia Cristã e Paulus, p. 1099;
(3) idem;
(4) Mateus 5.4;
(5) Estudos no Sermão do Monte – David Martyn Lloyd-Jones – Fiel, p. 49;
(6) Lamentações 3.38;
(7) 1João 1.8;
(8) O Legado da Alegria Soberana – John Piper – Shedd Publicações, p 224;
(9) Estudos no Sermão do Monte – David Martyn Lloyd-Jones – Fiel, p. 50;
(10) Gênesis 3.9-10;
(11) Mateus 28.20 e Êxodo 3.7;
(12) Lamentações 3.22-23;
(13) Lamentações 3.23-24;
(14) O Legado da Alegria Soberana – John Piper – Shedd Publicações, p 240;
(15) Lamentações 3.18, 38-40;
(16) Lamentações 3.19-20;
(17) Lamentações 3.26;
(18) Lamentações 3.21;
(18) Lamentações 3.57-59.
Ave Crux, Unica Spes!
Arquivado em: Devocional Não Temas
Sobre o autor: Não temas, filho! – É um devocional de autoria de Alberto M de Oliveira, e é publicado no blog Ecclesia Semper Reformanda Est, de propriedade do mesmo. Sua divulgação é autorizada e incentivada pelo autor, em qualquer meio virtual, desde que, como um bom cristão, seja divulgada a fonte.
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Quanto tempo sem o devocional, já estava temendo
A culpa é minha Wilian. Eu demorei para repassar alguns textos prontos e já publicados, e por motivos profissionais (além de um “apagão inspirativo”), estou há 3 semanas sem postar nada no Ecclesia Reformanda. Mas já já estarei na ativa novamente. Sinto-me honrado pela falta que possa fazer o devocional. A Deus toda a Glória!
Deus bendiga todos os leitores.
Abraços
Alberto Oliveira
ow tudo bem Beto, mas não assusta mais
Bom demais os devocionais, sempre volto para reler os passados e mesmo assim aprendo coisas novas